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Diario de Pernambuco - PE
01/01/2009 - 15:09

Entrevista: Luiz Pinguelli Rosa

"A vocação da Amazônia não é formar pastos"

Da Redação

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o físico Luiz Pinguelli Rosa, de 61 anos, é especialista em energia nuclear e ocupou a presidência da Eletrobrás no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Deixou o cargo depois de muita briga interna dentro do governo, inclusive com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e candidata do presidente para a disputa eleitoral de 2010. Ele agora está de volta, como secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, para lançar o plano nacional para o controle das emissões de gases poluentes no país. Ex-tenente do Exército, cassado pelo regime militar, Luiz Pinguelli é também hoje um dos cientistas mais respeitados dentro e fora do Brasil. Em entrevista ao Correio/Diario de Pernambuco, Luiz Pinguelli aborda, entre outros assuntos, sobre gases do efeito estufa, idéias para geração de energia limpa e critica os ambientalistas contrários à implantação de novas usinas hidrelétricas no país: "Eles lutam contra as hidrelétricas como antigamente nós lutávamos contra a ditadura. É um equívoco histórico".

O Plano Nacional sobre Mudança no Clima não corre o risco de se transformar apenas em uma carta de intenções?

Não creio, porque já existem alguns instrumentos de atuação. Também há interesses comuns entre governo e empresários na ampliação da produção do álcool combustível, por exemplo, e haverá uma pressão grande da sociedade para que haja o controle das emissões. O mais importante é reduzir as queimadas na Amazônia, que passaram a ser a vergonha nacional. Qualquer nível de redução do desmatamento é importante.

Por que o desmatamento, na sua opinião, é a vergonha nacional?

O desmatamento não serve para o desenvolvimento, atrapalha e agrava o controle da mudança climática. A produção de aço, por exemplo, depende dos fornos que são movidos a madeira e carvão vegetal. Parte desse aço é destinada a coisas úteis, como produtos utilizados na construção civil. Outra parte, porém, é para bobagens, como os carrões pesados da moda que poderiam ser evitados. É urgente a adoção de uma política do governo e fortalecimento do poder do Estado. Precisamos de leis e sanções para punir quem desmata.

Como conciliar o desenvolvimento do país e a manutenção das florestas?

Para manter a floresta em pé é mais fácil, do ponto de vista da conciliação do desenvolvimento com o ambientalismo. O mais difícil, no entanto, é como tratar as demais áreas fora da Amazônia. O que fazer com o cerrado, onde há grande expansão agrícola? Para isso, o zoneamento econômico ecológico é uma solução fundamental, porque define regras. E o zoneamento tem que ser feito de acordo com a vocação de cada região. Certamente, a vocação da Amazônia não é formar pastos ou plantar qualquer coisa.

Mas a fronteira agrícola avança sobre a Amazônia, inclusive com a elevação da taxa de desmatamento, que voltou a crescer?

Isso ocorre por falta de Estado e de polícia. Entendo que deveríamos utilizar as Forças Armadas nessa jornada. Na falta de terrorismo no Brasil, ou de comunistas, como antes, o Brasil deveria utilizar os militares não para reprimir o desmatamento, mas para dar apoio logístico e segurança aos fiscais.

Como o setor privado no Brasil pode contribuir para a redução das emissões de gases do efeito estufa?

A maneira mais simples seria buscar formas para que o setor industrial convergisse para melhorar suas instalações. É claro que isso não é tão simples. Por causa de heterogeneidade da produção econômica, existem muitas fábricas de fundo de quintal, pequenas e médias indústrias. E quem tem mais dificuldade para melhorar suas instalações é exatamente o pequeno industrial. Nesses casos, é preciso apoio do governo para o financiamento destinado à implantação de tecnologias mais limpas.

Qual a política que o governo pode adotar na composição da matriz energética e manter a geração limpa de energia?

As hidrelétricas são boas para o Brasil, desde que respeitem as restrições ambientais. Hoje, há uma oposição muito forte às hidrelétricas, o que é um equívoco histórico. Poderemos pagar muito caro por isso no futuro, se não chegarmos a um pacto. A Eletrobrás tem a ideia de adotar o modelo de plataforma-hidrelétrica. As usinas seriam implantadas no meio da floresta, sem nada em torno, como se fosse uma plataforma de petróleo no mar. As pessoas não poderiam morar próximo e, para chegar lá, teriam que ser transportadas de helicóptero, para não haver estradas em volta. É preciso fazer um pacto entre o governo e o movimento ambientalista para definir o que pode ser feito na implantação de hidrelétricas, já que é na Amazônia que se localiza o maior potencial. Os ambientalistas têm uma visão contra essas usinas como nós tínhamos contra a ditadura. O Brasil não pode abrir mão desse tipo de geração de energia.

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