Búzios sustentável
ASPÁSIA CAMARGO
29/10/2009 - 17:47
A cidade de Búzios foi, no Brasil, a primeira a fazer o Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentável. Fui a coordenadora desse Plano, que teve como responsável técnica a Dra. Cláudia Dutra, especialista em Estatuto da Cidade. Foi importante voltar à Búzios, nesse final de semana, a convite do vereador Leandro, e participar do debate com as Lideranças, sobre os avanços e os problemas que ainda persistem na cidade.
O secretário de Planejamento e Gestão, Rui Borba, não só marcou presença, como também se entusiasmou com a discussão, aceitando, inclusive, minhas sugestões de fazer a Agenda 21 de Búzios e atualizar o Plano Diretor.
Búzios é uma cidade de 25 mil habitantes que, três vezes por ano, é invadida por uma horda de turistas que muda, não só o ritmo, mas também a qualidade de vida da cidade. É preciso que cidades pequenas e maravilhosas como esta, tenham meios institucionais de se prevenir, obedecendo à capacidade de cargas de suas praias; de sua rede de hotéis e pousadas e do seu sistema viário.
Temos que achar uma forma de impedir o “turismo vândalo”, que muitas das vezes dá pouco retorno financeiro à cidade. E como fazer uma filtragem? Eis o problema... Muitos vão dizer que essa questão é pouco democrática, mas não é. O meio ambiente não agüenta essa pressão toda. Uma praia como a Azedinha, por exemplo, não pode ter mais que 300 pessoas tomando banho ali. E esse já é um número aberrante. Então, quem chegar primeiro entra e os demais vão pra outro lugar, porque ali não cabe.
Podemos ter um réveillon mais civilizado, um carnaval mais tranqüilo, e um lazer com maior qualidade de vida. E isso tudo esbarra na questão da educação ambiental ou falta dela. A invasão das praias pelo barulho dos barraqueiros e pelas músicas estridentes dos carros incomoda o sossego das pessoas. Praia é lugar de lazer, descanso, relaxamento. Não pode ser um lugar excitante demais, porque ferem todos os princípios da qualidade de vida e da sustentabilidade.
No Plano Diretor nós discutimos muito que Búzios tem que ser, em primeiro lugar, dos Buzianos. Nesse sentido, a pobreza da população de Búzios, que ainda existe, tem que ser resolvida. A Sustentabilidade tem que ser levada a sério, sob pena de transformarmos um paraíso, em um pesadelo literalmente insustentável. Ontem mesmo, domingo, caminhando pela praia de Manguinhos, pude ver a catástrofe das caixas de leite e dos plásticos de todo o tipo, vindos de Macaé. Como garantir a sustentabilidade deste paraíso que é Búzios e também dessa cidade em franco crescimento, que é Macaé?
Tivemos uma boa notícia, durante o debate, o secretário Rui Borba anunciou que vai fazer um Seminário para discutir melhor a vocação econômica de Búzios. Essa é, realmente, uma boa notícia! Não há sustentabilidade social e ambiental que possa ser alcançada sem o planejamento da sustentabilidade econômica. A vocação turística de Búzios precisa ser específica e focal. Ela não pode ser genérica, porque a cidade é pequena demais para atrair milhares de turistas. Não pode absorver.
Búzios precisa ter o foco no turismo náutico. É a cidade que tem as melhores condições naturais para a prática da vela. Essa tem que ser a vocação dela, além dos serviços gastronômicos. Em Búzios se come muito bem, os restaurantes são de excelente qualidade. Mas penso que talvez ainda esteja faltando uma grande vocação cultural para a cidade. Paraty já descobriu a sua, que é a Flip, a Festa Literária Internacional. Mas Búzios não achou ainda o que possa corresponder. Vamos procurar...