Enchentes e Desmoronamentos Assolam o Verão de 2011
André Esteves
21/01/2010 - 14:56
A previsão acima não é trabalho de médiuns nem de ciganos. Trata-se de uma constatação simples e direta de que pouco avançamos no estado do Rio de Janeiro nos quesitos preservação de encostas, obras de drenagem e em habitação na última década. As mortes e a destruição que as enchentes provocaram em Angra do Reis e na Baixada Fluminense na passagem deste ano provavelmente se repetirão no ano que vem e nos seguintes se não houver comprometimento político que vá além do interesse eleitoral.
Em junho de 2009, o presidente Lula e o Ministro das Cidades anunciaram o aporte de 4,7 bilhões para obras de drenagem em municípios que sofrem constantemente com as enchentes. O simples anúncio da verba carimbada não significa que as obras sejam realizadas. Para que aconteçam, são necessários projetos. Sem projeto aprovado, não há verba, não há obra. A administração de cada cidade precisa fazer sua parte também e ir buscar esse dinheiro, aprovar o projeto, licitar a obra e executar no prazo. Mas parece que falta gestão, consciência e capacidade para tirar qualquer coisa do papel.
Os desastres recentemente acontecidos evidenciam a omissão dos órgãos competentes em vistoriar as áreas atingidas. Agora, para satisfazer a opinião pública, nossos representantes anunciam as cifras de milhões que irão reconstruir essas regiões que passaram dias de terror em época de festa. Eleitoralmente, soa bem falar da dinheirama que vai chegar depois de uma tragédia há muito anunciada. Mas pouco se fala, e pouco se investiu, em projetos de prevenção. Por que só tocam nesse assunto depois que uma tragédia acontece? Porque falta competência e seriedade.
Não é mera coincidência que os locais mais atingidos são onde a população mais pobre mora. Segundo dados do Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE), um percentual de 19% da população da capital fluminense reside em favelas, a maioria delas em cima de morros. Ou seja, é fácil prever que novos deslizamentos de terra vão ocorrer.
A falta de coleta de lixo nas comunidades carentes e ausência de campanhas educativas agravam a situação. O lixo despejado a céu aberto corre para as tubulações, entope os bueiros e polui os mananciais. Outro ponto crucial é o assoreamento dos rios provocado pelo excesso de resíduos despejados sem nenhum tratamento. As empresas ecologicamente incorretas são também culpadas por essa tragédia. Na época de chuva forte as águas atingem níveis altíssimos e logo inundam as ruas e as casas. Em alguns pontos da Baixada Fluminense 5 minutos são o bastante para moradores conviverem com o caos da inundação, além de estarem expostos a doenças graves como a leptospirose, transmitida pela urina do rato. Em Nova Iguaçu a população já sabe até quando a enchente vai acontecer. Por que tratar o assunto como uma calamidade natural imprevisível?
Precisamos sair da política de gerenciamento de crise para uma política de prevenção. Implantar um modelo de gestão verde é uma alternativa moderna que possibilita crescer e gerenciar o impacto ambiental. É possível transformar preservação e prevenção em crescimento econômico. E não há outra saída senão respeitar a natureza, porque é inaceitável contabilizar mortos e desabrigados em tragédias anunciadas.
Feliz 2011.
André Esteves
esteves.andre@globo.com