Lagoa: soma zero.
De volta à mortandade de peixes na Lagoa e ao recorrente jogo de soma zero. Toda solução é bombardeada pelos adeptos das outras. Certas coisas no Rio parecem não mudar nunca, essa é uma delas...
Alfredo Sirkis
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A mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas precede o processo de urbanização, há registros dela em anais do Brasil império. Ocorre em situações de falta de oxigênio, que por sua vez, são provocadas por mudanças bruscas de temperatura e ventos que revolvem o fundo, liberam gases e favorecem a “blooms” de algas, que consomem o oxigênio dos peixes. O bloqueio total ou parcial do canal do Jardim de Alah, permanentemente dragado, é um fator significativo na medida em que suprime a troca com a água do mar e prejudica a oxigenação.
A presença dos esgotos é, eventualmente, um agravante mas, não a causa. A prova disso é que o fenômeno antecede a presença de esgotos, e que a melhoria recente detectada por séries de colimetrias efetuadas na Lagoa --e triunfalisticamente divulgadas-- atestando uma melhoria da qualidade da água, não foi suficiente para impedir a mais recente mortandade das savelhas e outros peixes. Como de costume, aconteceu perto do carnaval. Me lembro da anterior, em 2007.
Sabe-se há muito tempo qual a solução para o problema: um forte aumento de oxigenação da água da Lagoa. Isso pode ser feito de diversas formas: maior troca do mar com a Lagoa, mediante o alargamento do canal e enrocamento, bombeamento de água do mar, através de uma canalização ou aeração laminar, com injeção de oxigênio ou ozônio, no fundo da Lagoa, por uma rede de tubos PVC. Também, ajuda a dragagem hidráulica do lodo do fundo da Lagoa, que pode ser levado ao interceptor oceânico e expelido pelo emissário de Ipanema.
Acessoriamente, é importante conter o extravasamento de esgotos da rede para a Lagoa e, isso já foi parcialmente mitigado pela galeria de cintura, que não absorve o poluído canal da rua Gen. Garzon. Recentemente, a CEDAE fez outras obras complementares, financiadas pelo grupo do empresário Eike Batista. A maioria dessas soluções técnicas funciona só em tempo seco. A qualidade da água da Lagoa melhorou muito e hoje, em tempo seco, se aproxima do padrão de balneabilidade, embora mergulhar na Lagoa não seja um hábito carioca.
Essa melhoria em relação aos despejos de esgoto, no entanto, não previne o fenômeno pontual e drástico da mortandade de peixes. Alguns eméritos palpiteiros, que os jornais pavlovianamente adoram ouvir sempre que há algum problema com a Lagoa, têm como discurso de responsabilizar vazamentos reais, ou não, de esgoto como a “causa” do fenômeno. Não é, mas, virou um cacoete jornalístico dizer que é.
A não solução do problema da mortandade de peixes por uma das três ações de oxigenação listadas --pelos estudos que fiz, o alargamento do canal do Jardim de Alá e a construção de um enrocamento, seria a de melhor custo benefício a médio e longo prazo-- é de responsabilidade de um terrível traço cultural carioca, que é a tendência a polêmicas paralisantes, que levam a um jogo de soma zero. Sempre que uma dessas soluções está prestes a ser encaminhada ela é bombardeada, implacavelmente, pelos partidários das outras e, por gente em busca de um espaçozinho de mídia, entre os quais se incluem certos ambientalistas e pseudo-ambientalistas, líderes comunitários, acadêmicos, técnicos e promotores.
Há discursos prontos para atacar qualquer das soluções propostas --conheço todos de cor e salteado. Uns atribuem consequências catastróficas (inundação ou assoreamento radical), outros protestam contra a “transformação de uma lagoa de água doce em água salgada” –na verdade trata-se de uma laguna, que no passado tinha muito mais água salgada que hoje: é só olhar a largura do canal original, nas pinturas e fotos do Rio antigo.
Quando morreram os peixes em 2000, fui um dos organizadores do segundo Salve a Lagoa. Milhares de pessoas compareceram. Várias soluções foram concebidas e todas torpedeadas com sucesso. O Rio é assim: fazer é dificílimo. Não deixar fazer, é mole. Eu satanizo e embanano a sua solução, você a minha e, assim permanecemos, para sempre, parceiros nesse jogo de soma zero.
Acho que os peixes morrem é de raiva...
*vereador do Partido Verde.